• O autor

      Rodrigo Guerini é historiador, professor, autor do blog SanroJoga e redator de jogos para a hardMOB.

      Análise de Twilight Struggle (Devir)

      Quando eu voltei a acompanhar jogos de tabuleiros modernos, no início do ano passado, havia um estranho no ninho no rank de melhores jogos do Board Game Geek. Enquanto as primeiras posições eram ocupadas por jogos ao menos conhecidos, em que o apelo era claro, a primeira posição era ocupada por Twilight Struggle, um jogo de duas pessoas, sobre guerra fria com cerca de 3 horas de duração por partida.


      Jogos de tabuleiro modernos são um nicho. Quase ninguém que não vive no mundinho sabe do que estou falando quando cito mesmo os mais populares Catan, Carcassonne e Ticket to Ride. Mas Twilight Struggle faz parte de um nicho dentro do nicho, o de dois jogadores com duração de mais de 3 horas.

      Na minha cabeça, nada que Twilight Struggle fizesse poderia dá-lo o direito de ser o “melhor jogo do mundo”, a frente de Caverna, Agricola, Terra Mystica, Puerto Rico e Through the Ages. E então a Devir lançou-o no Brasil e eu joguei. Uma, duas, três... sete vezes. E... Eu devia ter mordido a língua.

      O que é?

      Simulando os eventos da Guerra Fria, Twilight Struggle coloca cada jogador controlando uma das superpotências do período (EUA ou URSS). O objetivo do jogador está em coletar 20 pontos nos 9 turnos de jogo.


      Apesar do mapa imenso do mundo, Twilight Struggle é, essencialmente, um jogo de cartas. Cada jogador inicia o turno com 8 (ou 9) cartas na mão e deve jogá-las, uma a uma. Aquilo que chamará a atenção logo de início é que as cartas vêm de um baralho comum e elas podem ser tanto benéficas para um lado, quanto para o outro.

      Assim, a estratégia do jogo está em jogar as cartas do lado oposto de modo que beneficie o mínimo possível o outro jogador e tentar aproveitar da melhor forma possível as cartas favoráveis a si.

      Componentes

      Com exceção do bonito tabuleiro, não há exatamente muito o que se apreciar aqui. Tudo é feito por cartas simples e pequenas peças de papelão. Não me entenda mal, a distinção entre o azul dos EUA e o vermelho da URSS criam uma visão bastante presente do mapa, mas é óbvio que Twilight Struggle não está competindo pelo prêmio de melhores componentes ou jogo que mais chama a atenção na mesa.


      Reitero que, apesar de um visual espartano, não há qualquer momento que um jogador não sabe exatamente o que está acontecendo em cada um dos locais do tabuleiro. Espartano sim, mas funcional.

      O manual e a tradução

      Em se tratando de Devir e em se tratando de um jogo de cartas não há dúvida que a primeira pergunta a se fazer é: “quanto a Devir errou desta vez?”. Depois de duas leituras no manual e várias partidas não percebi nada que desabonasse a tradução da Devir.


      O manual é de fácil entendimento, mas é um jogo que é preciso muita atenção nos detalhes. A parte de pontuação, por exemplo, é crítica e é necessário atenção redobrada. Sugestão, leia os exemplos com o tabuleiro do lado e as peças para retirar toda e qualquer dúvida. Melhor ainda, jogue a primeira partida com alguém que já saiba as regras.

      Quanto as cartas, embora eu não tenha lido todas – já que poucos jogos chegaram ao baralho de fim da guerra, não percebi nenhum erro de digitação ou interpretação, embora ao menos uma carta poderia deixar um pouco mais claro o seu objetivo.

      Jogando

      A partir do momento que os jogadores recebem suas cartas na primeira rodada, cada um deles terá decisões difíceis e fundamentais até o último momento. Sim, há sorte em Twilight Struggle tanto quanto pelo rolamento de dados, quanto pela própria distribuição de cartas. Mas cada jogador é senhor do seu destino e as posições onde ele será colocado dependem inteiramente de suas decisões (e as do seu adversário).


      Jogar uma carta que beneficia mais o adversário que ao próprio jogador é uma necessidade. Mas a partir desta obrigação é possível criar uma estratégia que ou diminua o benefício ao adversário ou que gere algo de positivo para si.

      A sensação de estar sendo estrangulado, que qualquer decisão é importante acompanha a partida inteira, mas a cada vez que uma sequência de cartas bem orquestrada ou uma pontuação que cria mais benefícios para si do que para o adversário cria um sistema de recompensa bastante interessante. Extremamente satisfatório também é ver a cor da sua facção se espalhando pelo mapa, tomando controle de continentes.

      Conclusão

      Como um amante de euros, tema não é algo fundamental num jogo para que eu o aprecie. Um jogo pode ser apenas um empurrador de cubos de um lado para o outro que se mecanicamente for bom, eu estarei satisfeito.

      Dito isto, depois de mais duzentos jogos diferentes que joguei neste último ano e meio nenhum conseguiu trazer o tema de maneira tão presente e satisfatória durante toda a partida como Twilight Struggle.


      A disputa micro em cada carta ou o vai e vem entre as potências durante toda a partida respiram Guerra Fria por todos os poros. E, no topo disto há um jogo que mecanicamente é fabuloso.

      Twilight Struggle é sim um jogo de nicho, dentro do nicho. Três ou quatro horas para apenas dois jogadores não é algo comum, ainda mais no Brasil que jogos de tabuleiro ainda tendem a ser partidas rápidas em mesas de bar.

      Mas se você tiver alguém para jogar, digo assim: Twilight Struggle é sim, um estranho no ninho. Mas ele é o cisne, um belo jogo que merece estar na coleção de qualquer um que consiga colocá-lo na mesa nem que uma vez por ano, se for o caso.
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