• ABCD... W = X? Sobre androides em Alien Covenant



      Aviso: este artigo é uma especulação acerca de Alien: Covenant e pode conter informações sensíveis em relação a seu enredo.

      Ash, Bishop, Call, David…

      Existe uma tradição na franquia Alien, cada androide em um novo filme é batizado seguindo uma ordem alfabética. Nos quatro filmes lançados, de 1979 a 1997, temos: Ash, Bishop, Bishop novamente, e Call.

      Em 2012 Ridley Scott, que dirigiu o primeiro filme, retoma o universo que ajudou a criar para explorar novas possibilidades, e com Prometheus continua a brincadeira dos nomes com o androide David.

      A exceção de Alien 3, os androides desempenham papeis de destaque nos filmes. O que é curioso, pois nem havia a personagem Ash no roteiro original de Alien. Ele foi introduzido em revisões posteriores pelos produtores David Giler e Walter Hill, a fim de criar uma trama secundária no filme.

      Daniel O’Bannon, o criador de Alien, ficou furioso com essa mudança, ele não gostava dessas tramas, técnica bastante explorada na década de 1970 em filmes policiais a partir da figura de um agente inimigo infiltrado entre os mocinhos. “É uma ideia inferior, de mentes inferiores: foi bem interpretado, bem dirigido, e felizmente ocupa tão pouco tempo de tela que não atrapalha o enredo principal”.

      Mas Ridley Scott adorou a ideia e Ash ficou na estória, como um preposto da companhia (Weyland-Yutani) infiltrado entre a tripulação. Mesmo a contragosto de O’Bannon, que a essa altura da produção de Alien colecionava atritos com a produção do filme devido as constantes mudanças no roteiro, Ash faz sentido no contexto industrial do Nostromo (o cargueiro espacial palco do filme) entre arquétipos sindicalizados, como Brett e Parker. Durante a pré-produção de Alien houve uma das maiores greves de mineradores de carvão nos Estados Unidos, o roteiro e a fotografia do filme absorvem muito desse período.

      Passada outra revisão (Alien foi reescrito duas dezenas de vezes, antes, durante e depois das filmagens), e Ash virou um androide. Para Ridley Scott foi até pouco, o diretor em certo momento precisou ser contido pelos produtores, ao tentar transformar a personagem em um alienígena. Acabou convencido, “chamaria atenção demais, correríamos o risco de ser comparados a Star Wars, ou Star Trek”.

      Voltando a Prometheus, é interessante notar que o filme a princípio não iria focar no xenomorfo, era para ser a primeira parte de uma trilogia, uma prévia que desembocaria indiretamente no filme de 1979. Ridley Scott não estava mais interessado na criatura, segundo ele já cansada, explorada a exaustão. A franquia precisava de novo fôlego, que viria através da estória de uma raça de manipuladores genéticos interplanetários, os Engenheiros, segundo o filme, a raça do “Navegador” fossilizado de Alien.

      Mas, em algum momento entre o lançamento de Prometheus e o início da produção do segundo filme (que seria batizado de Paradise, referência ao poema clássico de John Milton “O Paraíso Perdido”) as coisas mudaram. Scott resolveu voltar ao foco original de Alien, congelou a produção de Alien 5 (que já estava em pré-produção) por motivo de conflito cronológico e, pelo que vemos de todo o material publicitário divulgado até agora, voltou pesado para sua antiga criatura em Alien: Covenant.

      A trilogia parece apontar agora não mais para uma passageira referência a Alien, mas detalhar sua gênese. E é nesse contexto que possivelmente entram os androides, Scott que vinha seguindo a regra alfabética dos batismos, em Alien: Covenant, rompe a norma e nomeia o novo androide como Walter.

      ... e Walter

      Agora num mesmo filme teremos dois androides, David e Walter, e muito embora essa nomenclatura possa ser simples homenagem aos cocriadores de Alien (David Giler e Walter Hill), quase nada nas produções de Scott vai para a tela sem que tenha algum significado, uma ponta amarrada em algum lugar.

      Durante os últimos meses a FOX divulgou muito material publicitário sobre o filme, desaguando em trailers recentes que praticamente montam o quebra cabeça do que será parte do filme. Ninguém faz isso sem um propósito, é um risco comercial muito grande.

      Existem dois motivos básicos para uma produtora entregar o enredo de um filme através de seus trailers: garimpar investimento ou inexperiência. Veja bem, um trailer que é melhor que o filme é uma coisa, um trailer que expõe demasiadamente o filme é outra. Este destrói o impacto do produto final sobre a audiência, torna-o menos interessante.

      Então por que essa enxurrada de detalhes sobre a estória de Alien Convenant agora? Dois meses antes de seu lançamento? Dinheiro não deve ser, inexperiência tão pouco.

      Prometheus teve uma equipe de publicidade muito boa trabalhando a chegada do filme, soube controlar as expectativas e criar o ambiente antes de seu lançamento a partir de campanhas virais. Agora não, a publicidade parece toda voltada a revelar o filme.

      Por que isso?

      Talvez seja uma estratégia publicitária muito bem elaborada, onde os produtores jogam esporos do filme para todo lado para ver onde vão cair e no que vai dar. Você desperta interesse pelo filme e faz sua divulgação a partir do processo de multiplicação de teorias sobre seu enredo.

      E “esporos” não é uma referência gratuita, está em Alien Covenant, como uma das formas de contágio pelo “agente catalisador genético”. Ideia reciclada aliás, retirada lá do roteiro original de Alien. Através de esporos é que a tripulação do Nostromo seria contaminada, depois o processo foi substituído, adaptando-se ao visual erótico que H. R. Giger concebeu para os alienígenas.

      Agora, se muitas pistas estão sendo reveladas sobre o enredo do filme, que basicamente parece querer explicar como o xenomorfo foi criado, são poucas as que fazem referência aos dois androides.

      Prometheus e (pelo que já foi exposto de) Alien Covenant nos mostraram tipos de xenomorfos diferentes. São criaturas que muito embora compartilhem aspectos anatômicos e fisiológicos do original, são essencialmente orgânicos, enquanto o oitavo passageiro era uma criatura biomecânica.

      Talvez seja nesse contexto que o rompimento da tradição da nomenclatura dos androides faça sentido, pois depois do W, de Walter, vem o X, de xenomorfo. Dentro do caldo de referências mitológicas, literárias e religiosas que Ridley Scott tem usado nesses roteiros, David 8 é uma alegoria perfeita para um desfecho irônico.

      Em Alien, Ash “pifa” quando exposto a dualidade de sua existência. Um diálogo interessante, cortado de uma das revisões do roteiro, onde o androide esclarece a Ripley porque “traiu” a tripulação do Nostromo:

      “Vocês me deram inteligência. Com o intelecto inevitavelmente vem a escolha. Tive a honra de presenciar um desses raros momentos em que um grande passo evolucionário é dado. Duas espécies altamente bem-sucedidas em imediata competição por recursos e sobrevivência. Minha lealdade é apenas com a descoberta da verdade. A verdade científica requer beleza, harmonia e acima de tudo simplicidade. O problema entre vocês e o alienígena produzirá uma resposta simples e elegante. Apenas um sobreviverá”


      Tecnicamente, David faz parte da leva de androides emocionalmente instáveis da era Ash, não foi projetado com os inibidores de comportamento de um Bishop, é intelectualmente independente como Call e, pelos eventos traumáticos de Prometheus, psicologicamente um poço de rancores.

      Com tempo, tecnologia e motivação, isolado num planeta e com um tremendo complexo de Dr Moreau, poderia estar esperando apenas a chegada de uma letra para criar outra.

      Ou talvez não seja nada disso.
      Comentários 5 Comentários
      1. Avatar de Netossauro
        Ótimo texto @kingMOB , simplesmente me faz ficar mais louco ainda pra ver o filme que está por estrear. Estou passando grande partes do meu dia olhando vídeo de teorias no youtube, e essa acima faz muito sentido.
      1. Avatar de mackbad
        Muito bom,gostei das ideias e teorias (fatos) apresentados.
        Esses detalhes do filme original eu desconhecia, enriquece saber desses detalhes e muitos tamben devem desconhecer que existem cenas extras que foram cortadas(alien1 e 2) ,algumas podem ser vistas no youtube ou versao do diretor como cenas extras.
      1. Avatar de mackbad
        Muito bom,esses detalhes do filme original eu desconhecia ,gostei como foi apresentado algumas teorias(fatos),algums devem desconhecer mas existem cenas extras dos filmes alien 1 e 2 que podem ser encontradas na internet e na versao extendida.
      1. Avatar de tommy =P
        Otima analise, particularmente sou fã dos filmes do Alien, menos o 4 e o AvP2 que são lixos completos.

        Confesso que nunca tinha me dado conta dessa relação dos nomes dos Androides
      1. Avatar de GibaSSJ
        assisti alien o resgate só 7 vezes, opa ja deu vontade de assistir dinovo rssr, em relação a nomes, pouco me importa, só quero que o filme fique bom para eu assistir varias vezes.
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