• O autor

      Rodrigo Guerini é historiador, professor, autor do blog SanroJoga e redator de jogos para a hardMOB.

      Mariposas (Galápagos)

      Não deveria ocorrer assim, mas expectativas são um importante aspecto do quanto apreciamos um jogo de tabuleiro – e tantas outras formas de entretenimento. Nenhuma expectativa pode transformar um mero jogo mediano em uma ótima experiência na mesa, por outro lado altas expectativas podem decepcionar pelo título não entregar tanto quanto o esperado.



      Por que digo isto? Porque a designer Elizabeth Hargrave criou em torno de seu trabalho uma expectativa enorme depois do sucesso de 2019: Wingspan. No momento desta análise, o já novo-clássico-moderno se encontra no TOP 1 do BGG para jogos família e número 21 do rank geral. Muitos esperam do próximo jogo grande de Hargrave uma nova obra de arte e expectativas... Você sabe.

      Por outro lado, as minhas expectativas quanto a Mariposas – que na verdade é um jogo de Borboletas, mas o nome é em espanhol - foram muito diferentes da grande maioria dos jogadores. Eu não gostei de Wingspan. Culpa minha provavelmente, o ambiente barulhento, 5 jogadores na mesa – sendo três novos no hobby – uma explicação por cima, tudo conspirou para que eu o achasse no máximo mediano. Fosse um jogo para análise e eu daria outras chances, mas não foi o caso e eu acabei nunca dando esta oportunidade, sobrando apenas a impressão negativa.



      Tudo isto para falar que estou indo na contra mão da grande maioria das pessoas. Enquanto muitos esperavam em Mariposas um jogo da magnitude de Wingspan, eu parti com um grande preconceito. Em parte por esta razão, eu fui surpreendido positivamente.

      Mariposas é mais um jogo familiar, ainda mais simples que seu antecessor, a complexidade aqui se limita a identificar os símbolos de pontuação dispostos na mesa e como executá-los da melhor forma possível.

      A cada turno os jogadores devem jogar uma de duas cartas da mão e movimentar suas borboletas. Terminando a movimentação o jogador deve pegar um token de flor correspondente ao local ou, no caso de ter terminado sua jogada numa cidade, pegar o bônus correspondente.



      É um simples jogo de movimentação onde a imprevisibilidade dos dados é mais ou menos contida pelo uso das cartas – que variam de 3 a 5 casas de movimento, com diferentes padrões. Esta movimentação serve para conseguir os tokens de flores (que servem para gerar novas borboletas no tabuleiro), diferentes cartas (para pontuação) e principalmente cumprir os objetivos das 3 rodadas: primavera, verão e outono.

      Estes objetivos são diferentes a cada partida e, durante a preparação, apenas o primeiro objetivo é aberto, sendo os outros revelados conforme a ação dos jogadores ou a passagem das rodadas. Assim, os jogadores devem passear pelo mapa da América do Norte buscando cumprir estes objetivos com maior eficiência possível, ao mesmo tempo lembrando que no outono devem considerar migrar de volta para o local de início com suas borboletas para uma pontuação bônus.

      Este cabo de ferro entre cumprir as pontuações de cada rodada que o levam cada vez mais longe do ponto de partida (e chegada) e a constante pressão de tentar retornar com suas borboletas já na quarta geração ao ponto inicial formam uma tensão gostosa na partida dando a cada escolha um peso maior do que a movimentação a esmo.



      Ajuda, também, o fato de Mariposas ser um jogo belíssimo, com o seu tabuleiro chamativo e as peças de borboletas coloridas e alegres. Considerando sua leveza e justamente por ser despretensioso surpreende, a menos que você estiver esperando uma nova obra prima, o que não é o caso.

      Pontos positivos

      Para toda a família – Com regras simples e mecânicas de fácil execução o jogo pode ser apresentado para jogadores novos sem alienar experientes.

      Diversidade – Os objetivos diferentes de pontuação em cada jogo modificam consideravelmente o que cada jogador deve buscar em cada partida. Apesar de ações simples, é sempre necessário pensar em como tirar o melhor proveito das pontuações.



      Pontos a considerar

      Sorte – Apesar de haver diversos limitadores para a sorte, como as cartas de movimento variando de 3 a 5 movimentos apenas, a falta do controle total da quantidade de movimentos de suas borboletas pode por a perder uma estratégia vencedora.

      Já acabou? – Bons jogos deixam esta sensação de que acabam antes da hora, Mariposas entretanto assusta com a rapidez que uma partida termina, mal começou e os jogadores já devem estar prestando atenção em quantas turnos faltam para o final do jogo.



      Pontos negativos

      Eu não vi você crescer - A coleção de cartas que representam o desenvolvimento das Borboletas pode ser impossível de se conseguir se todos os jogadores não estiverem com este objetivo. Em uma quantidade menor de jogadores (2, por exemplo) é virtualmente impossível conseguir o set que se quer, com exceção de muita sorte.

      No fundo do armário – Ao contrário de Wingspan, Mariposas não tem aquilo que separa um jogo comum de um clássico. É um bom jogo, mas apesar de toda a produção é facilmente esquecível. Diverte a todos da mesa, mas não acelera corações.



      Considerações finais – Você dificilmente verá alguém que ama ou odeia Mariposas. É um jogo menor que não tem as pretensões de ser mais do que isto. Sem despertar grandes amores ou grandes ódios, Mariposas acaba sendo uma experiência agradável para todos na mesa. Isto, claro, se você se lembrar de tirá-lo da prateleira e colocá-lo na mesa.
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