• O autor

      Rodrigo Guerini é historiador, professor, autor do blog SanroJoga e redator de jogos para a hardMOB.

      Paris (Grok)

      Quando Wolfgang Kramer e Michael Kiesling se sentaram pela primeira vez para elaborar a sua trilogia das máscaras (Tikal, Java, hoje Cuzco, e Mexica) o primeiro já era um renomado autor com dezenas de títulos publicados entre eles El Grande, um dos jogos mais influentes do hobby. Já Kiesling ainda não tinha publicado seu primeiro grande hit.



      Mais de vinte anos depois, Kiesling ainda é mais lembrado por sua trilogia das máscaras e por El Grande, enquanto Kiesling parece lançar jogos fantásticos um atrás do outro, o maior deles em popularidade e penetração no hobby: Azul.

      Por isto, Paris, mais um jogo da dupla depois da repaginação de sua trilogia antiga é tão interessante. O que todo este tempo e todo o aprendizado destes autores trouxeram para este novo trabalho?

      Se os pontos de ação, marca da antiga trilogia foi deixada de lado para uma estrutura de turno mais convencional e, apesar de todas as ótimas novas firulas trazidas para cá, é no controle (ou mais especificamente na influência de área) que Paris se sustenta.



      Repaginada, ok, moderna, talvez, Paris possui diversos extras, mas todos esses servindo de degraus para a mecânica de controle/maioria de área. Isto, claro, não é algo negativo. Mas é interessante que depois de tantos anos os dois autores quando voltam a trabalhar juntos recorrem a uma área a qual dominam (o trocadilho foi intencional).

      Com regras simples e um manual enxuto, Paris parece ao primeiro olhar um jogo simples, no máximo um passo adiante aos jogos familia. Ledo engano, embora não possa ser considerado um jogo pesado a dinâmica de conseguir dinheiro e comprar prédios com a limitada quantidade de chaves e a dificuldade de conseguir recursos torna-o um jogo que pode assustar alguém que esperava uma diversão mais leve como os da trilogia Azul.



      Por outro lado, jogadores mais experientes que buscam o brilhantismo dos autores podem se frustrar. Paris, está longe da agressividade de Mexica e menos interessante que os tiros certeiros de Kiesling está executando nos últimos anos, como Heaven & Ale ou Riverboat. Comparado a estes ótimos jogos, Paris é esquecível, não um jogo ruim longe disto, mas carece nele algo que se faça destacar. Parece aquele primo desinteressante que ninguém lembra para chamar nas festas de final de ano.

      Pontos positivos

      Deixe-me pensar – Escolher entre colocar uma chave num bairro que gera muitas moedas e disputar cada lugar ferozmente com outros jogadores ou ir para um local que gera menos, mas monopolizar os pontos do lugar? Pequenas decisões que acompanham toda a duração da partida.

      Eu vou, mas eu não volto – É uma ideia simples, que já apareceu em inúmeros outros jogos, mas andar na trilha de bônus até onde quiser, podendo pegar peças extremamente valiosas, mas sem poder voltar e pegar todos os outros bônus deixados pelo caminho abre inúmeras dinâmicas entre os jogadores. Não é a parte central, mas adiciona muito ao jogo.



      Pontos a considerar

      Simples porém não tanto – O manual de Paris é simples e o ensina muito bem, algo que é percebido pela rápida explicação na mesa. Entretanto, um aspecto importante da pontuação são as fichas de bônus, todas abertas desde o início da partida. Sem explicar cada uma delas os novatos iniciam a partida parcialmente cegos. A iconografia ajuda a lembrar, mas não é clara o suficiente para entender só de passar o olhar. É preciso a ajuda do manual nas primeiras partidas.

      Não vai olhar não – Escudos para manter informações escondidas são sempre um aborrecimento. Disto isto, apesar de Paris utilizá-lo, ele é bem feito e não fica caindo por nada, graças ao excesso de cartonado que o jogo apresenta. Fica a dúvida se não poderia haver outra opção além dos (belos) escudos.



      Pontos negativos

      Só jogo se ele jogar – Paris funciona em dois jogadores, mas fica evidente a falta de pelo menos um terceiro jogador para apimentar o controle de área. Até um automa elevaria a partida de dois jogadores.

      Puxa a mesinha – É incrível como Paris devora mesa com seu tabuleiro montável que mais parece um quebra-cabeça. Apesar de ficar lindo na mesa, fica a pergunta se não seria mais prático um tabuleiro normal em vez de toda aquela quantidade de cartonado. Inclusive o “lindo-mas-inútil-que-chega-até-a-atrapalhar-a-visão-dos-jogadores” Arco do Triunfo.


      Consideração final: Paris é o típico lançamento que não despertou muita atenção com exceção dos nomes que carregam no design. Longe de ser um jogo ruim, não é um clássico, nem a melhor opção entre os jogos dos autores. Por isto acabará sendo esquecido nas prateleiras e memórias dos jogadores. É possível que em alguns anos ganhe um culto a sua volta, não por sua qualidade superior, mas, novamente, pelos nomes que estão na caixa.
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