Bruno

Barba.

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9 Comentários
Flagrei a mim mesmo, lambendo os escassos e espaçados fios do meu bigode. Percebi então, que brotou em meu buço um bigode. Não é bem um bigode, mas também, está longe de ser uma penugem feminina num buço mal cuidado. Não é um bigode de cafajeste, nem de malandro. Falta força, falta densidade capilar para que ele assuma uma dessas facetas bigodísticas. Ainda assim, é o único bigode que tenho. Não posso reclamar dele.

Ele, no seu singelo ser, esforça-se para fazer bem o seu papel. Acho que temos muito em comum. Não sou um homem forte, com fôlego e destreza. Mas, consigo atravessar a rua correndo quando necessário, carrego as compras do mercado e até subo escadas sem parar. Assim é meu bigode. Ele não é espesso, autoritário e charmoso. Ele é na dele. Tranquilão. Não coça, não fica tentando filtrar a espuma da cerveja, muito menos participa em situações constrangedoras, como quando o nariz está escorrendo.

Não consegue encontrar-se com o cavanhaque, mas mesmo assim, improvisa. Deixa que seus fios laterais cresçam mais que os do meio, assim, dependendo da iluminação ou umidade do rosto, passam a impressão de estarem formando um contorno capilar único, em torno da minha boca. É algo a ser reconhecido como um refinamento de processos, eu diria.

Meu cavanhaque, também não é um cavanhaque. Não possuo aquele tufo de cabelos que toma conta do queixo e suas adjacências. Meu cavanhaque não forma um soul patch logo abaixo do lábio inferior. Ele cresce no contorno ósseo do meu queixo. Invade muito levemente meu rosto. Mas, muito tenho a agradecê-lo por seu desempenho. Meu rosto oval, com nariz saliente e torto, quando na ausência do cavanhaque, fica mais oval, e meu nariz fica mais saliente. Fica enorme.

Ou seja, meu cavanhaque assume com louvores a missão de me proporcionar um aumento significativo na silhueta do queixo. Com ele, meu rosto fica mais proporcional, e juntos somos felizes. O óbvio é engraçado: eu sinto que ele faz parte de mim. É como se fôssemos amigos, tentando um ajudar o outro. Quando surge alguma espinha no meu queixo, ele ordena que os pêlos cubram essa míngua de cuidados dermatológicos. Eles cobrem com fúria, mas ao mesmo tempo, com a delicadeza de realizar uma ação, sem grandes estardalhaços. São como ninfas guerreiras. Valquírias, por assim dizer.

Guerreiros capilares, de fato. Eles sabem que na retaguarda do meu queixo, onde conecta-se com o pescoço, encontram-se soldados fracos, sem treinamento, distantes uns dos outros. Então, projetam suas lanças para frente, formando curvas para trás, que formam uma sombra de mistério, e escondem a desorganização do batalhão do pescoço. São organizados, são eficazes em suas ações. Mais do que isso, são apaixonados por o quê fazem. Isso é facil de perceber. Inflamados pelo desejo de vencer, ruborizam a si mesmos, dando a coloração avermelhada de seus corpos.

Uma demonstração pura de força-de-vontade, visto que meus cabelos são loiros – e preguiçosos a crescer.

Minhas costeletas. Ah, minhas costeletas! Elas não ficam para trás, no que tange à desempenhar funções de defesa. Elas sabem que o terreno que precisam cobrir, é mais alto e curvo do que os tantos outros terrenos. E essa curva, deixaria explícito o ponto fraco da região das bochechas. Elas sabem que sem eles, eu fico com o rosto maior, com as bochechas maiores, com um aspecto rechonchudo e bonachão. Então, esforçam-se para contornar meu maxilar, permitindo que ele fique protuberante, mas ao mesmo tempo, que a lateral do meu rosto ganhe um contorno digno de uma pessoa que não está acima do peso.

Ah, minha barba. Meu exército capilar. Todos treinados e imbuídos de valores. São corajosos. Quando reunidos, bradam com louvor ao meu coração, para que ele permita que eu dê minha cara ao tapa. Eles não se importam. Eles estão ali para isso. Para amortecer os impactos sociais, físicos e psicológicos. Contornam meus sorrisos imperfeitos, e projetam minhas gargalhadas. Barba, guardiã das minhas facetas.

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http://www.cavaleirosholograficos.com.br/2011/05/barba/

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Comentários

  1. DouglasteR -
    Avatar de DouglasteR
    Se vc usasse uma safety razor não teria esses problemas !
  2. [email protected] -
    Avatar de pReD@ToR
    Muito bem escrito.
    E pro inferno a "cultura Gillette".
  3. botinator -
    Avatar de botinator
    Nada contra, mas não é duplicado do seu blog? Coloca um resumo e o link.

    Close blog.
  4. Bruno -
    Avatar de Bruno
    Citação
    Nada contra, mas não é duplicado do seu blog? Coloca um resumo e o link.

    Close blog.
    Ahm, sim, é duplicado. Só que gosto dos meus amiguinhos da hM e dos meus leitores do blog. Só coloco o link, para facilitar a leitura de outros textos.
  5. kingMOB -
    Avatar de kingMOB
    Nós homens estamos sendo reprimidos em nosso sagrado direito ao cultivo da nobre arte da face vilosa. Desde tenra idade enrijecidos pelas idas e vindas da lâmina, quando fortes e vistosos, somos obrigados a dispô-los na pia, escorrendo pelo ralo junto ao sabão... sem nenhuma cerimônia, sem nenhuma honra...

    =)
  6. Dòlggan -
    Avatar de Dòlggan
    Eu uso cavanhaque há cerca de 8 anos.
    Tentei tirá-lo umas 2x, sem sucesso.
    Me senti estranho, com cara de bunda.
    Ele já faz parte da minha personalidade...
  7. manisnk -
    Avatar de manisnk
    Só raspo quando me pertubam bastante, fico meses barbudo parecendo um "abdalah"ai da vida.
  8. brunomot -
    Avatar de brunomot
    Atualmente estou fazendo só o bigode.. Mas tenho que ter paciência já que pra minha barba aparecer deve demorar 1 ano, hahahuahua
  9. Arnej -
    Avatar de Arnej
    Bom texto.


    Adoro meu bigode.